11. COMO ENFRENTAR A ADVERSIDADE PRODUTIVA E A ESCASSEZ DE RECURSOS
Neste capítulo se tratará de demonstrar que:
a) alguns fatores de produção escassos podem ser substituídos por outros mais abundantes, sem perder eficiência produtiva e econômica;
b) certas tecnologias complexas e caras podem ser substituídas por outras mais simples e de menor custo;
c) vários insumos industrializados podem ser substituídos por sucedâneos produzidos dentro da propriedade;
d) alguns insumos industrializados podem ser eliminados ou fortemente diminuídos nos processos produtivos;
e) o uso de insumos externos pode ser diminuído sem reduzir os rendimentos que atualmente obtêm os agricultores;
f) os rendimentos podem ser aumentados mantendo o atual nível de utilização de insumos e os mesmos gastos; e finalmente
g) a adversidade físico produtiva e a escassez de recursos não são obstáculos insuperáveis que devam continuar mantendo os agricultores no círculo vicioso de miséria.
Para demonstrar estas asseverações, se analisarão os principais fatores que convencionalmente são apontados como restritivos e obstaculizadores do desenvolvimento agropecuário. Em cada caso se indicará um conjunto de alternativas que permitirá eliminá-los ou torná-los menos importantes e inclusive prescindíveis.
11.1 O QUE FAZER QUANDO A TERRA É INSUFICIENTE E DE MÁ QUALIDADE?
Os 13.500.000 pequenos agricultores da América Latina possuem uma superfície média de 11,2 hectares de terra, dos quais apenas 4,2 ha são cultiváveis e somente 3,3 ha estão realmente cultivados. Esta situação, comparada com a dos poucos proprietários de grandes extensões de terra, muitas vezes subutilizadas e ociosas, por si só justifica a urgente necessidade de que os pequenos agricultores se organizem e se mobilizem para conseguir uma distribuição mais justa e equitativa deste importante fator de produção. Todavia, enquanto se desenvolve tal esforço, é necessário adotar outras medidas paralelas, já que a insuficiente terra dos pequenos agricultores será ainda mais insuficiente se eles:
- continuarem utilizando apenas 80% da superfície que dispõem (4,2 hectares cultiváveis versus 3,3 hectares cultivados);
- não adotarem tecnologias capazes de aumentar a sua produtividade (rendimentos mais altos e maior número de colheitas por unidade de tempo).
É fácil constatar que a maioria das 13 alternativas indicadas no capítulo 5 contribuiriam para contrabalançar os efeitos da insuficiente superfície de terra, se fossem devidamente adotadas. Infelizmente, ao não conhecê-las, ou não estar capacitados nem motivados para adotá-las, muitos agricultores continuam:
- preparando o solo de forma inadequada e fora de época;
- não adotando medidas elementares para manter ou recuperar a sua fertilidade;
- não ocupando-o durante todo o ano, mesmo que as condições climáticas o permitam;
- não adotando variedades de ciclo mais curto para que produzam, mesmo que o período de chuvas seja de curta duração;
- fazendo semeadura no lugar definitivo, em vez de fazer transplante, mesmo que a mão-de-obra não seja um fator limitante e certos cultivos permitam a adoção de tal tecnologia; fazendo transplante se poderia reduzir o tempo de ocupação da terra escassa e os gastos com capinas, fertilizantes, irrigação e agroquímicos;
- não cultivando espécies de maior densidade econômica ou variedades mais produtivas;
- não realizando os trabalhos agrícolas de forma correta e no momento oportuno;
- utilizando sementes de baixa qualidade e semeando-as com espaçamento inadequado ou não repondo, de imediato, as plantas que não tenham germinado;
- não enxertando e não podando as fruteiras, com repercussões negativas na precocidade, rendimento por planta e número de plantas por hectare;
- permitindo que as pragas, ervas daninhas e enfermidades reduzam o rendimento de suas culturas e criações;
- produzindo espécies menos eficientes por unidade de terra, de capital e de tempo (por exemplo: criando animais maiores em vez de animais menores(40*); animais menores em vez de leguminosas; cereais em vez de raízes e tubérculos, etc). Muitos produtores destinam uma significativa superfície de sua escassa terra a manter potreiros com baixíssima capacidade de suporte, em vez de dedicá-la a culturas tecnificadas de forrageiras de corte; com tal medida poderiam aumentar a produção de forragem por hectare e, com isto, economizar em cercas ou liberar parte da terra para outras culturas ou criações;
- obtendo baixa produtividade do seu gado e alongando desnecessariamente a idade para iniciar a atividade reprodutiva e para chegar ao mercado (e ocupando a terra escassa por um período excessivo e desnecessariamente longo) devido a falta de um melhor manejo da alimentação e da sanidade;
- permitindo que ocorram grandes perdas no campo, na colheita, na armazenagem e no transporte.
Em resumo, se os agricultores não se organizam para conquistar uma maior superfície de terra, se continuam mantendo 20% dela improdutiva, se não a utilizam durante todo o ano, se não adotam tecnologias apropriadas que lhes permitiriam aumentar os rendimentos das explorações, se permitem que ocorram perdas durante e depois da colheita....., é evidente que a escassa terra será insuficiente e pouco produtiva e, em consequência, ainda mais insuficiente. Como se pode observar, além da insuficiência de terra, também existe uma inadequação na aplicação das tecnologias agropecuárias e gerenciais, que contribui a fazê-la ainda mais insuficiente. O melhor argumento para demonstrar o anteriormente mencionado e as reais possibilidades de "aumentar" a superfície de terra, é comparar o desenho no.2 com o no.6; esta comparação permite constatar a imperiosa e urgente necessidade de orientar e capacitar aos produtores para que eles mesmos façam esta transformação, a partir do uso de tecnologias que sejam apropriadas aos recursos que possuem, em vez de continuar esperando por perfeccionismos inalcançáveis e utopias dependentes de decisões e auxílios externos. Nem sempre a melhor forma de aumentar a produção dos pequenos agricultores é conceder-lhes mais terra.
11.2 O QUE FAZER QUANDO O CRÉDITO É ESCASSO E INACESSÍVEL ?
Os recursos que o Estado destina aos programas de crédito rural são reconhecidamente insuficientes; os altos custos operativos das agências oficiais de crédito, a concessão de subsídios, a alta morosidade na recuperação dos empréstimos e as anistias de dívidas, os tornam (ou tornaram) ainda mais insuficientes; além do mais, os trâmites administrativos para sua obtenção são normalmente muito burocratizados. O antes mencionado, somado ao fato de que costumam ocorrer interferências ou favorecimentos políticos em sua liberação em favor dos grandes produtores, traz como consequência que a imensa maioria dos agricultores não tenha acesso a este importante fator; importante porque deveria ter como objetivo estimular a introdução de inovações tecnológicas e gerenciais, melhorar a eficiência produtiva e aumentar a produtividade agropecuária.
Em muitos casos a filosofia e os objetivos do crédito oficial foram desvirtuados, pois este instrumento não foi utilizado para fomentar a introdução de inovações tecnológicas e gerenciais nem para estimular que os fatores de produção, próprios ou adquiridos, sejam aplicados racionalmente(41*).Tradicionalmente o crédito tem servido para financiar:
i) campanhas de aumento da produção a base de tecnologias que já são adotadas pelos agricultores; consequentemente, sem cumprir nenhuma função indutora à modernização tecnológica;
ii) a aquisição de insumos e equipamentos; e
iii) investimentos em obras de infraestrutura. Isto é, o crédito rural tem sido um estimulador da utilização de "tecnologias de produto" e não tanto do uso de "tecnologias de processo". Isto se deve, em parte, a que existe uma equivocada tendência a pensar que a introdução de inovações tecnológicas, é sinônimo de incorporação de insumos e maquinarias, e a estabelecer uma condicionabilidade entre ambos, o que nem sempre nem necessariamente é verdadeiro.
O crédito oficial geralmente é concedido em quantias elevadas em favor de uns poucos agricultores, com o agravante de que a estes mesmos beneficiários é oferecido ano a ano. Muitas vezes o crédito se destina a financiar todos os anos, os insumos e serviços de baixo custo que poderiam e deveriam ser custeados com recursos próprios dos agricultores; recursos que deveriam ter sido gerados com a rentabilidade da atividade agropecuária dos ciclos anteriores.
Ao proceder desta maneira, os escassos montantes do crédito rural oficial se esgotam rapidamente para satisfazer a uma minoria e o Estado deixa de atender à grande maioria de pequenos agricultores. Esta grande maioria necessitaria de crédito em pequenas quantidades e o requeriria umas poucas vezes, para financiar fatores de produção "reproduzíveis", como por exemplo, algumas fêmeas prenhas (vaca, porca, ovelha, cabra, coelha) uma colméia de abelhas, algumas aves de postura, sementes melhoradas (não híbridas) de distintas espécies, certos insumos mínimos, ferramentas, implementos agrícolas para tração animal, etc. Alguns destes fatores (animais e sementes) se multiplicariam e reproduziriam nos anos seguintes, liberando os agricultores da necessidade de recorrer todos os anos aos agentes financeiros em busca de novos empréstimos. Desta forma, haveria disponibilidade de crédito rural para financiar a outros produtores ainda não beneficiados.
Sempre que fosse possível, o crédito deveria ser concedido para empresas de tipo comunitário (com garantia e responsabilidade solidária); estes grupos comunitários se encarregariam de oferecer serviços e recursos aos membros da associação; por exemplo: campos comunitários para a produção de sementes ou mudas enxertadas; unidade grupal para a produção de rações; criação de suínos em sistema de condomínios; aquisição de um reprodutor de melhor potencial genético; compra de maquinaria para uso comunitário, etc.
Desta forma, com uma única operação de crédito se financiaria uma empresa de caráter permanente, que multiplicaria e produziria bens para vários associados durante muitos anos; este mecanismo substituiria o inadequado procedimento no qual cada agricultor, de forma individual, tem que enfrentar todos os anos os penosos trâmites do banco ou recorrer ao usureiro para comprar, também de forma individual, os vários insumos que os beneficiariam uma única vez. Em outras palavras, seria um crédito para que o grupo produza coletiva e reiteradamente os fatores de produção nas próprias comunidades, em vez de crédito para que cada agricultor compre individualmente tais fatores aos intermediários a cada ano.
O crédito oficial deveria ter um caráter instrumental e multiplicador e ser concedido como apoio ou estímulo inicial para que todos os agricultores, ao tecnificar suas atividades agropecuárias, consigam atingir um dos seguintes objetivos:
a) produzir (em vez de comprar) alguns fatores de produção passíveis de ser produzidos na propriedade (sementes, mudas, adubos, animais de trabalho e de produção, etc); ou
b) gerar os recursos financeiros necessários para adquirir aqueles fatores que não podem ser produzidos no sítio. A propriedade eficiente e muito diversificada deveria ser o banco do agricultor.
Dito de outra forma, em primeiro lugar o crédito rural oficial deveria ser um "estimulador" da eficiência técnica e gerencial das atividades agropecuárias e não um "compensador" que subsidie a ineficiência, nem um "facilitador" que estimule a compra de insumos e equipamentos(42*). Em segundo lugar, a tradição de conceder montantes elevados a uns poucos agricultores mais opulentos e ano após ano, deveria ser substituída pela seguinte orientação: concedê-lo em pequenas quantias para atividades iniciais com efeito multiplicador; o crédito seria concedido em uma só operação, de forma coletiva, a um grupo de agricultores, só para facilitar-lhes a decolagem inicial. Ao dar-lhes esta arrancada, o crédito permitiria que os agricultores se liberassem da sua dependência nos anos seguintes (ao gerar em suas propriedades os recursos necessários para financiar as atividades do próximo ciclo de culturas); em vez de perpetuar a referida dependência, tal como ocorre na atualidade.
Ao reduzir o montante do crédito, eliminar sua perenidade, aplicá-lo em investimentos reprodutíveis e evitar que seja concedido ano após ano a uma mesma minoria de privilegiados, haveria recursos suficientes, os quais poderiam ser extendidos à grande maioria de pequenos agricultores. Como se vê, a insuficiência de recursos poderia ser atenuada se se adotasse medidas que dessem ao crédito escasso um caráter mais democrático e o necessário efeito multiplicador. Caso não se adote estas medidas, os recursos serão cada vez mais insuficientes.
Por outra parte, deve reconhecer-se que a correção das distorções antes mencionadas, ainda que necessária, não será suficiente. O crédito rural oficial, de por si já escasso e mal utilizado, será ainda mais escasso se:
a) os fatores de produção financiados continuarem sendo mal utilizados ou desperdiçados, em virtude da inadequada e insuficiente capacitação dos agricultores; por exemplo, utilizar pesticidas de amplo espectro que eliminam inclusive os inimigos naturais, em vez de eliminar apenas as pragas, ou utilizar herbicidas para eliminar leguminosas das pastagens por considerá-las como ervas daninhas;
b) os recursos recebidos continuarem sendo desviados para outras atividades mais rentáveis ou remuneradoras fora do setor agropecuário;
c) continuar sendo utilizado na compra de insumos prescindíveis ou que poderiam ser substituídos por outros produzidos nas propriedades;
d) continuar sendo aplicado para financiar equipamentos ou investimentos superdimensionados;
e) os produtores não aplicarem todas as inovações que não dependem de crédito; não pode alegar falta de crédito o agricultor que ainda não incorporou as muitas tecnologias, cuja aplicação reconhecidamente não depende do auxílio creditício.
Para fazer com que o fator crédito seja menos indispensável, os pequenos agricultores poderiam adotar as seguintes medidas tecnológicas, gerenciais e organizacionais:
11.2.1 Diversificar suas atividades produtivas
Como fruto da diversificação, cada agricultor poderia ter uma "granja integrada autosuficiente" e produzir nela praticamente todos os ingredientes necessários para oferecer diariamente, a sua família e aos seus animais, uma alimentação completa e balanceada; além do mais, poderia assegurar a obtenção diária de pequenas rendas e produzir certos insumos que substituiriam os insumos externos. Ao fazê-lo, seria mais autosuficiente e indiscutivelmente se tornaria muito menos dependente do crédito.
Os agricultores que se dedicam a monocultura que lhes gera alimentos e renda apenas uma ou duas vezes ao ano, evidentemente serão muito mais dependentes do crédito, não só para comprar os alimentos e outros produtos para o lar, como também para satisfazer as suas necessidades produtivas (insumos).
11.2.2 Melhorar a administração das propriedades
Os agricultores deveriam utilizar integral e racionalmente todos os recursos produtivos que possuem para que estes rendam na plenitude de suas potencialidades (terra, mão-de-obra familiar, água, equipamentos, animais de produção, animais de trabalho, etc) como alternativa realista para não necessitar adquiri-los em maior quantidade. Ao planificar as culturas e criações, deveriam priorizar aquelas que geram receita, em distintas épocas do ano e oxalá durante o ano inteiro (gado leiteiro, olericultura, bananicultura, criação de pequenos animais, etc). Com estas duas medidas de administração rural se tornariam muito menos dependentes do crédito.
11.2.3 Fazer investimentos de forma conjunta
Existem certos investimentos que por razões técnicas ou econômicas não se justifica fazê-los individualmente, porém bem poderiam ser efetuados em forma grupal com os vizinhos; por exemplo, uso de reprodutores e maquinarias, construção de obras de irrigação, centros de esfriamento de leite, microagroindústrias coloniais, etc. Desta forma seria possível reduzir os investimentos e diminuir a dependência do crédito rural.
Como se vê, é necessário desmitificar a importância do crédito, introduzindo inovações tecnológicas e gerenciais que tornem tal fator menos imprescindível. É impressionante o muito que os próprios agricultores poderiam fazer para tornar-se menos dependentes deste fator supostamente imprescindível, mas que na realidade não o é(43*); não se deve, portanto, sacralizá-lo. Igualmente impressionante é constatar os imensos esforços que se fazem para que os agricultores tenham acesso a tal fator e os mínimos esforços que são feitos para diminuir a sua dependência do mesmo e torná-lo mais eficiente, quando está disponível.
E para concluir:
a) se o crédito fosse tão eficaz e eficiente não haveria tantos agricultores endividados (se existem tantos, significa que quando houve crédito, este muitas vezes criou novos problemas em vez de solucioná-los); b) se houvesse abundância de recursos para o crédito rural, ainda assim não seria a solução para os pequenos agricultores, devido a sua baixa capacidade de endividamento (por insuficiência de garantias reais) e sua baixa capacidade de ressarcimento (devido a baixa rentabilidade) e
b) se nos tempos em que o crédito era fortemente subsidiado não foi tão seguro e benéfico para os agricultores, como será agora que as taxas de juros são reais e positivas? Definitivamente, é necessário combater a mitificação do crédito e com ele, a mistificação dos agricultores. Se o Estado já não te crédito para distribuir o que lhe resta é capacitar os agricultores para que saibam prescindir do mesmo ou gerá-lo em seus próprios sítios.
11.3 O QUE FAZER QUANDO AS SEMENTES MELHORADAS SÃO EXCESSIVAMENTE CARAS?
As sementes melhoradas têm um grande potencial para aumentar os rendimentos por superfície cultivada; em alguns casos, a simples mudança deste fator permite obter extraordinários incrementos na produtividade. Apesar disto e por distintas razões, os pequenos agricultores normalmente não utilizam sementes de melhor qualidade (genética, física, sanitária e fisiológica); os baixos rendimentos que por tal motivo obtêm, requerem que ampliem a superfície cultivada muito além do que seria necessário; esta ampliação exige uma esgotadora e desnecessária utilização de mão-de-obra. Os agricultores não podem seguir semeando grãos de baixa produtividade e dessa forma estar condenados a uma produção insuficiente; mui especialmente em zonas de minifúndio, onde com mais razão é necessário obter maior quantidade de alimentos por unidade de terra, quer seja cultivando variedades mais precoces, mais produtivas ou mais nutritivas.
A incidência das sementes no custo total de produção é habitualmente muito baixa (existem algumas exceções, como por exemplo, os tubérculos de batatas) frente aos indiscutíveis benefícios que elas produzem em termos de aumento dos rendimentos. Em função disso, mesmo que as sementes sejam caras, os agricultores deverão fazer esforços especiais para ter acesso a um material de bom potencial produtivo. Caso não possam comprálas todos os anos, deveriam adquiri-las em pequenas quantidades (não híbridas) e multiplicálas para tê-las disponíveis para os anos seguintes, a preços muito baixos.
A propósito, uma publicação da FAO denominada "Autoabastecimento de sementes de qualidade: uma solução ao alcance do pequeno agricultor" demonstra as reais possibilidades que têm os camponeses, por limitados que sejam os seus recursos de produzir suas próprias sementes. Nesta publicação se menciona, a título de exemplo, que para produzir aproximadamente os 20 kg de sementes que são necessários para semear um hectare de milho, seria suficiente cultivar (com boa tecnologia) no ano anterior uma parcela com uma superfície inferior a 100m2; e, que para semear esta reduzida superfície, o agricultor necessitaria comprar apenas 150 a 200 gramas de sementes de boa qualidade. Qual é o agricultor que não pode comprar 150-200 gramas de sementes e cultivar com tecnologia adequada, uma parcela de 100 metros quadrados para multiplicá-las?(44*)Adicionalmente esta alternativa tem um extraordinário efeito educativo e motivador, através do qual o próprio agricultor se dará conta que, se ele foi capaz de cultivar com racionalidade e eficiência uma superfície de 100 metros quadrados, porque não será capaz de fazê-lo em uma superfície de 1000 ou de 10.000 metros quadrados ou de fazê-lo em toda a área cultivada. Se foi capaz de fazê-lo com o milho, porque não poderá fazê-lo com o feijão, a soja ou com o amendoim?
Como alternativa, os pequenos agricultores poderiam manter um campo comunitário de produção de sementes e mudas, o qual poderia ser conduzido por um dos seus membros, prévia e adequadamente capacitado para tal fim. Também poderiam obter os materiais de propagação através de seleção massal, como por exemplo escolher as plantas mais sadias, mais vigorosas e mais produtivas; no caso do milho, eliminar os grãos das extremidades das espigas; no caso da batata inglesa, marcar as plantas com sintomas de vírus e destruí-las para que seus tubérculos não se misturem com aqueles destinados a sementes; no caso das leguminosas, eliminar as vagens mais próximas ao solo; no caso da mandioca, utilizar o terço médio das ramas e escolher estas em função da sanidade e do número de raízes; no caso das hortaliças, selecionar as plantas mais sadias e mais produtivas, guardando para obter sementes os melhores frutos, etc; adicionalmente colhê-las em data mais próxima à maturação fisiológica, secá-las imediatamente depois da colheita e armazená-las em lugar fresco e seco, ventilado e protegido das pragas.
Como se pode constatar, os pequenos agricultores poderiam ter reais possibilidades de dispor de sementes de melhor qualidade, sem necessidade de que ano após ano gastem dinheiro com sua compra; ou estejam sujeitos a que não cheguem a tempo de semeá-las, não tenham boa sanidade, germinação e pureza, ou que o seu potencial produtivo seja insatisfatório.
No entanto, a grande maioria dos agricultores ao não adotar estas medidas e ao não dispor de recursos para comprar sementes melhoradas, segue semeando ano após ano seus grãos de baixo potencial produtivo, com desconhecido e frequentemente baixo poder germinativo e muitas vezes contaminados com patógeneos, pragas e sementes de ervas daninhas; esta limitante somada ao fato de não fazer teste de germinação e de não regular a plantadeira, redunda em um inadequado espaçamento e, em consequência, em baixos rendimentos. Nestas condições, de pouco servirá que os agricultores gastem seus escassos recursos em irrigar e aplicar fertilizantes e pesticidas, porque devido às razões antes citadas, a cultura não responderá adequadamente a estes fatores externos de alto custo.
11.4 O QUE FAZER QUANDO OS FERTILIZANTES QUÍMICOS SÃO CAROS E INACESSÍVEIS?
Os solos dos pequenos agricultores geralmente estão muito erodidos e têm baixa fertilidade; consequentemente, uma medida imprescindível para tornar factível esta estratégia de autodesenvolvimento endógeno, é recuperar e manter a fertilidade do solo para aumentar a sua produtividade. Para tal fim é muito conveniente que os agricultores incluam em seus sistemas de produção a criação de animais e a rotação de culturas com leguminosas inoculadas.Devido ao esgotamento dos solos, é difícil aumentar os rendimentos das culturas sem utilizar adubos orgânicos ou fertilizantes químicos. Infelizmente, estes últimos têm preços que muitos pequenos agricultores não podem pagar; porém felizmente, a recuperação e manutenção da fertilidade dos solos não necessariamente são sinônimos de permanentes e custosas incorporações de fertilizantes sintéticos. A ciência agronômica dispõe de outras alternativas que tornam os fertilizantes químicos menos imprescindíveis e, se persiste a imprescindibilidade de seu uso, que eles sejam mais eficientes. Algumas das alternativas incluídas no capítulo 5 demonstram claramente estas possibilidades.
Se os agricultores não adotam tais alternativas; se produzem monoculturas que não lhes permitem fazer rotações com leguminosas inoculadas; se em seus sistemas de produção não incluem os animais, os que ajudariam a recuperar a fertilidade dos solos através das pastagens e do esterco; se deixam o solo sujeito a erosão por mantê-lo descoberto durante longos períodos de tempo, em vez de semear alguma cultura de cobertura para adubo verde; se desperdiçam ou queimam a matéria orgânica disponível; se não fazem análise de solo antes de aplicar os fertilizantes químicos e os incorporam em quantidade,formulação(45*), época (sem parcelar a aplicação) ou localização inadequada; se não semeiam em curvas de nível; e se, finalmente, não eliminam as ervas daninhas no momento oportuno e permitem que estas e não as culturas, consumam os nutrientes; se tudo isso ocorre (e em geral lamentavelmente ocorre), é evidente que os agricultores seguirão muito dependentes do uso de fertilizantes químicos e deverão comprá-los em quantidades superiores às quais seriam necessárias se adotassem as alternativas tecnológicas recém-mencionadas.
11.5 O QUE FAZER QUANDO AS RAÇÕES E CONCENTRADOS SÃO MUITO CAROS?
"Convém assinalar que nos programas governamentais da maioria dos países latinoamericanos, o aspecto alimentação é o que menos atenção recebe. Com frequência se sustenta que a baixa produção dos animais das pequenas unidades agropecuárias, se deve ao seu baixo potencial genético. Sob essa premissa, se investem somas consideráveis de dinheiro em importações de animais de "melhor" qualidade genética e em programas de inseminação artificial e até transferência de embriões com resultados negativos. A magnitude em que a alimentação afeta a produtividade animal, se pode apreciar nos resultados de um experimento executado na serra do Peru (IVITA, 1974). Ovelhas crioulas procedentes de várias comunidades rurais com um peso médio de 19,7 kg aos 20 meses de idade e prenhas, foram transladadas para potreiros de "rye grass e trevo branco", prévio tratamento contra parasitas 45 É frequente que agricultores mal orientados comprem fórmulas compostas de fertilizantes que contêm N, P e K, em circunstâncias nas quais a cultura anterior foi uma leguminosa inoculada e em consequência, o solo provavelmente requer menos nitrogênio; ou que a mata foi recentemente derrubada e queimada e, nestas condições, o solo possivelmente tem suficiente potássio. gastrointestinais. Seus cordeiros, nascidos neste novo ambiente, pesaram ao desmame, aos 90 dias, em média 17 kg".[9] Isto significa que atingiram em 90 dias quase o memo peso que suas mães levaram mais de 600 dias para consegui-lo.
Muitos produtores não conseguem fazer economicamente viáveis as suas explorações pecuárias pelo fato de alimentar os seus animais com grandes quantidades de rações e concentrados industriais. Devido ao seu alto preço, este procedimento encarece muitas vezes desnecessariamente os custos de produção. Os agricultores poderiam reduzir os custos da alimentação de seus animais, se estivessem sensibilizados sobre a importância de algumas das medidas mencionadas a seguir e se fossem devidamente capacitados para adotá-las:
1) Melhorar suas pastagens através da introdução de gramíneas mais produtivas e nutritivas e sua associação com forrageiras leguminosas devidamente inoculadas, manejando-as adequadamente para que produzam forragens em maior quantidade e de melhor qualidade. A base da alimentação dos poligástricos deveria ser constituída por pastagens para reduzir os custos, e para que eles não compitam com os seres humanos e com os animais monogástricos. Para os poligástricos, as rações e concentrados de origem industrial deveriam ser apenas um complemento, depois de esgotadas, nesta ordem, as seguintes alternativas: pastoreio direto; forragens para corte e consumo in natura; feno e/ou silagem; e grãos produzidos na propriedade. Os concentrados deveriam ser utilizados de forma estratégica, fornecendo-os em maior quantidade às vacas que produzem mais, nas etapas que têm maior capacidade de resposta e no momento que são maiores suas exigências nutricionais, para compensar o esgotamento provocado pela maior produção de leite. Em virtude do seu alto custo os concentrados não deveriam ser utilizados de forma indiscriminada independente do desempenho produtivo de cada vaca.
2) Armazenar os excedentes em épocas de abundância (silagem, feno) para utilizá-los nos períodos de escassez. Melhor ainda, se for possível (e muitas vezes o é) semear espécies que produzam nos períodos críticos; a título de exemplo, semear aveia ou couve forrageira durante o inverno em zonas temperadas ou leguminosas e cana de açúcar em zonas tropicais. Estas são alternativas muito interessantes para produzir "feno ou silagem viva" e tê-los disponíveis nas épocas de escassez, sem necessidade de incorrer em todos os gastos (em dinheiro e tempo) para a preparação, armazenagem e conservação da silagem ou feno convencionais.
3) Cultivar capineiras para corte, porque o seu rendimento por hectare geralmente é superior ao dos potreiros em regime de pastoreio.
4) Implantar bancos de proteínas.
5) Usar antiparasitários para que sejam os animais e não os parasitas os que consomem os nutrientes das forragens e rações.
6) Elaborar suas próprias rações, a partir de matérias primas que produzem ou que poderiam produzir em suas propriedades. Nas chácaras dos pequenos agricultores da América Latina se produzem, ou se poderiam produzir, matérias primas com as quais eles poderiam obter forragens e rações de excelente qualidade, tais como milho, sorgo, soja, alfafa, trevo, guandu, gliricidia, desmodium, centrosema, soja perene, algaroba, leucena, stilosantes, cana de açúcar, rami, mandioca, abóbora, batata doce, etc. Com algumas destas espécies, os agricultores poderiam melhorar as suas pastagens monofíticas, aumentar sua capacidade de suporte e melhorar seu valor nutritivo; outras lhes permitiriam complementar suas pastagens mediante produção de forrageiras para corte; e por último, certas espécies lhes possibilitariam a produção de suas próprias rações a nível de propriedade; comprando apenas pequenas quantidades de sais minerais e proteínas de origem animal (só para os monogástricos).
Estas rações caseiras podem ser de qualidade superior as industrializadas e seus custos são incomparavelmente mais baixos; quando são complementadas com alfafa verde ou por pastoreio com forrageiras rústicas e palatáveis, os gastos com a alimentação se reduzem de forma muito significativa. Se considerarmos que em certas criações, como a de suínos, a alimentação constitue 80% do custo total de produção, é evidente que comprar ou produzir as próprias rações determinará se o agricultor terá perdas ou ganhos em sua atividade.
É inaceitável que os pequenos agricultores produzam algumas das valiosas matérias primas antes mencionadas (milho, sorgo, soja, alfafa, etc), as vendam in natura a preços baixos, e posteriormente comprem a altos preços as rações fabricadas, em grande parte com estes mesmos ingredientes. É necessário adverti-los que ao proceder desta maneira, provavelmente estão comprando uma ração que foi fabricada com os mesmos ingredientes produzidos pelos próprios agricultores; ingredientes que, depois de fazer um longo percurso desde as suas propriedades de origem até o centro industrial, regressam devidamente processados e vendidos a preços elevados. Adotando este procedimento equivocado, os produtores não se dão conta que estão compartilhando seus escassos ganhos com o comerciante que lhes comprou a matéria prima, com o industrial que a processou e com o intermediário que lhes vendeu a ração; e que além do mais, estão também pagando o frete de ida e volta, os impostos e outros gastos incorporados ao preço final da ração ou concentrado.
Mais dramático ainda é constatar que muitas vezes estes produtores necessitam recorrer aos agentes de crédito, endividar-se e pagar juros para comprar uma ração que, como se disse, muito provavelmente foi fabricada com os ingredientes produzidos em suas propriedades. Estas e outras distorções similares (cujas soluções poderiam e deveriam estar ao alcance dos agricultores) são importantes razões pelos quais os seus lucros são insuficientes. Se eles estivessem devidamente capacitados para fabricar tais rações em suas propriedades ou comunidades, economizariam os recursos que lhes permitiriam pagar, em curto prazo o custo do motor e do triturador necessários para moer os ingredientes. Uma boa capacitação (feita uma só vez) seria suficiente para emancipar os produtores da dependência prejudicial e desnecessária na aquisição de rações que se repete de forma rotineira, durante todas as suas vidas.
Como se vê, os recursos produtivos geralmente estão disponíveis em suas propriedades, as soluções existem e são eficazes; só falta capacitar aos agricultores e demonstrar-lhes que eles mesmos são capazes de solucionar os seus problemas, a partir do melhor uso dos seus próprios recursos.
11.6 O QUE FAZER PARA MELHORAR O POTENCIAL GENÉTICO DOS ANIMAIS?
Os pequenos agricultores normalmente têm poucos animais de produção, em virtude da insuficiência de recursos para adquiri-los em maior quantidade, da reduzida superfície de suas terras e da baixa capacidade de suporte de suas pastagens. Agrava esta situação o fato de que necessitam de um reprodutor e têm poucas fêmeas; por tal motivo geralmente existe um superdimensionamento do primeiro em relação com o número de fêmeas (por exemplo tem um reprodutor para cinco vacas, quando o ideal seria um para 25 ou 30 fêmeas). Em virtude deste superdimensionamento, os produtores contribuem, sem querer, para que a superfície de sua terra escassa seja ainda mais reduzida, porque o reprodutor ocupa o espaço e consome os alimentos que poderiam ser destinados a mais de uma fêmea adicional. O outro agravante é que tanto os reprodutores como as fêmeas geralmente são de baixo potencial genético e cada pequeno agricultor não pode ter um bom reprodutor. Uma alternativa seria a organização dos agricultores para que em conjunto adquirissem um reprodutor de melhor potencial, que possa atender a um número ideal de fêmeas pertencentes a vários integrantes do grupo; os agricultores deverão entender que lhes será muito mais econômico adquirir e alimentar a um único porém bom reprodutor, que comprar cinco reprodutores medíocres e alimentar cinco deles desnecessariamente. A segunda alternativa seria constituir um grupo para contratar os serviços de inseminação artificial (ou organizar o seu próprio serviço).
Com qualquer das duas alternativas se superaria o problema do superdimensionamento; ao eliminar o reprodutor individual, cada produtor poderia ter uma vaca adicional e, sobre tudo, melhoraria a qualidade genética do rebanho obtendo reconhecidas e indiscutíveis vantagens produtivas e econômicas. Infelizmente, a maioria dos produtores não adota estas soluções, não tanto por falta de condições econômicas para fazê-lo; e sim porque não estão convencidos sobre a importância de melhorar o potencial genético do seu rebanho e por desconhecimento sobre suas reais possibilidades de consegui-lo.
É conveniente reiterar que de pouco servirá que os produtores melhorem o potencial genético do seu gado, se antes desta medida eles não aumentarem a produção de forragens, se não produzirem as suas próprias rações, se não armazenarem forragem para épocas de escassez, se não desmamarem precocemente os terneiros, se não melhorarem a eficiência reprodutiva (antecipando a idade de reprodução, reduzindo os intervalos entre partos, aumentando o número de crias por parto e aumentando o número de animais desmamados) e se não vacinarem, mineralizarem e desparasitarem os seus animais.
Uma reflexão sobre os temas incluídos nos itens 11.5 e 11.6
Nestes dois itens foram incluídas algumas alternativas que permitiriam aos produtores pecuários aumentar a produção e a produtividade dos seus rebanhos, através da adoção de medidas compatíveis com os recursos que eles normalmente possuem. Não obstante, eles geralmente não o fazem, entre outras razões porque não se dão conta das perdas que lhes ocasiona o fato de adotar métodos tradicionais de criação de animais. Também porque não lhes foi demonstrado que eles dispõem dos recursos necessários, que têm reais possibilidades de introduzir inovações de baixo custo e que são capazes de fazê-lo.
Com o propósito de motivar aos produtores para que adotem as medidas antes propostas, é útil fazer-lhes ver, entre outras coisas que:
a) Se uma vaca inicia a parir aos 42 meses podendo fazê-lo aos 28, se tem partos a cada 24 meses podendo tê-los a cada 13 meses, e se o novilho leva cinco anos para chegar ao mercado podendo fazê-lo aos dois anos e meio, é evidente que o agricultor verá seus ganhos sensivelmente reduzidos; além do mais, necessitará mais terra e maior quantidade de alimentos para manter animais que durante um longo tempo consomem, porém virtualmente não produzem, ou produzem abaixo de suas potencialidades.
b) Se uma vaca produz três litros diários de leite durante 180 dias podendo produzir seis litros durante 300 dias, a renda diminue, já que ela produziu apenas 540 litros de leite por lactação, em circunstâncias que poderia ter produzido 1.800; Ademais, há uma capacidade ociosa correspondente a um fator de produção caro - como são as vacas - que aos produtores lhes custa muito adquirir. Se as vacas produzem pouco leite, a prioridade não necessariamente deverá consistir em comprar mais vacas, mas sim em melhorar o desempenho produtivo e reprodutivo das já existentes, fundamentalmente com melhor alimentação e cuidados sanitários; é necessário sensibilizar aos agricultores sobre a importância da produtividade e demonstrar-lhes que aumentar o número de vacas não é a única alternativa (nem a mais importante) para incrementar a produção de leite e melhorar os seus ganhos.
c) Se uma porca tem três partos em dois anos e consegue desmamar neste período apenas 15 leitões podendo ter cinco partos e desmamar 35; se estes demoram 11 meses para chegar ao peso de mercado em vez de fazê-lo em 6 meses, é evidente que se produzirá desperdício de animais de produção, terra, instalações, mão-de-obra e, muito especialmente, do fator de maior custo que é a alimentação; porque as fêmeas deixaram de produzir 20 leitões e os 15 leitões desmamados consumiram recursos durante cinco meses adicionais, em cujo período não produziram ou o fizeram abaixo de suas potencialidades.
Muitas e reiteradas experiências têm demonstrado que para melhorar a produção pecuária não necessariamente se requer de grandes investimentos, nem de instalações muito sofisticadas, nem de animais de alto potencial genético, nem de transplante de embriões, nem de polivitamínicos ou suplementos de concentrados industrializados. Somente se reque melhorar a alimentação (com componentes produzidos na propriedade), a sanidade e a reprodução.
11.7 O QUE FAZER PARA EVITAR RISCOS E INCERTEZAS?
As atividades agropecuárias estão sujeitas a riscos tais como a incidência de pragas e efermidades, as adversidades climáticas, as incertezas de preços e de comercialização, etc. É necessário que os agricultores diminuam as probabilidades de se ver afetados por aqueles riscos e incertezas que são evitáveis ou atenuáveis. Com tal propósito, poderiam adotar as seguintes medidas:
1) Planejar com os seus vizinhos as atividades agropecuárias (espécies e superfícies a cultivar), com o fim de adequar a oferta à demanda e com isto evitar superprodução e baixa de preços; fazer a chamada "produção programada".
2) Diversificar a produção para não depender de uma ou de poucas culturas ou criações. É fácil entender que se os agricultores se dedicam a poucas culturas (ou a uma só), é mais provável que uma adversidade climática, a incidência de uma praga ou enfermidade, ou um preço desfavorável os afetem mais gravemente. A título de exemplo: se a insuficiência de chuvas prejudica o milho, talvez se salve o sorgo, que é mais resistente ao estresse hídrico; se uma geada imprevista destroi a plantação de batata inglesa, talvez se salvem as lentilhas, a aveia e a cevada; se alguma enfermidade prejudica a batata inglesa, provavelmente não afetará a batata doce ou a mandioca; se a febre suína afeta aos porcos, todas as demais espécies se salvarão porque não são susceptíveis a tal enfermidade.
Mesmo que não ocorra nenhuma adversidade climática ou sanitária, isto não significa que os agricultores de monocultura estarão a salvo; porque quando as condições são favoráveis a produção será satisfatória para a maioria dos produtores e os preços se reduzirão; no ano seguinte, poucos semearão a cultura afetada e os preços se elevarão; no terceiro ano, todos semearão a referida espécie e os preços se reduzirão e assim ocorrerá sucessivamente. A diversificação das atividades agrícolas e sua integração com as atividades pecuárias é o melhor antídoto contra os riscos; ela é a "companhia de seguros" dos agricultores.
3) Escalonar as semeaduras ou utilizar variedades com distintos ciclos vegetativos, para diminuir os riscos climáticos, parcelar a oferta e alongar o período de comercialização; ao extender este período poderão vender maiores quantidades e fazê-lo a melhores preços.
4) Produzir espécies não perecíveis que técnica e economicamente podem ter postergada a sua venda, se no momento da colheita as condições de mercado não forem favoráveis.
5) Produzir espécies que possam ser processadas ou transformadas em outro produto se as condições de mercado assim o recomendarem (por exemplo, elaborar frutas secas ou transformar milho e soja em suíno).
6) Adotar medidas contra uma possível incidência de pragas e enfermidades nas culturas ou contra enfermidades e parasitas nos animais. Nas condições dos pequenos produtores pecuários de muitos países da Região, a incidência de febre aftosa, mastite, vermes gastrointestinais e carrapatos é muito frequente; e, por tal motivo deveria receber medidas permanentes de profilaxia, diagnóstico e controle. Por não fazê-lo, os produtores pecuários têm grandes perdas, com o agravante de que algumas não são facilmente perceptíveis porque os animais não morrem. Não obstante, se reduz a produção e a fertilidade e baixa o índice de conversão alimentar; com isto se desperdiçam rações, aumentam os gastos sanitários, se alonga o tempo para chegar ao peso de mercado, etc. Os produtores deveriam ser capacitados sobre medidas profiláticas e primeiros socorros veterinários; com isto poderiam evitar significativas e desnecessárias perdas em seus rebanhos.
11.8 O QUE FAZER QUANDO OS INSUMOS AGRÍCOLAS SÃO MUITO CAROS?
Se por falta de orientação, os agricultores cometem em suas atividades produtivas algumas das distorções mencionadas neste documento, necessitarão utilizar crescentes quantidades de insumos, os quais em grande parte se desperdiçarão e não produzirão os resultados desejados.
Infelizmente, existe uma forte pressão por parte dos interesses comerciais, que utilzam eficazes e poderosos meios publicitários para motivar aos agricultores a comprar e utilizar mais insumos industrializados e outros componentes materiais que podem ser patenteados e comercializados pelas grandes empresas que os fabricam. Em contrapartida, poucos são os esforços no sentido de capacitar aos agricultores para que adotem tecnologias alternativas que lhes permitam diminuir a dependência do uso de insumos industrializados, ou adverti-los sobre a sua correta utilização, quando eles são realmente indispensáveis. Por razões de ordem comercial, não se motiva aos agricultores para que usem as "tecnologias de processo", porque estas não são comerciáveis.
Com tal desequilíbrio de esforços em prol do uso das "tecnologias de produto", não é de surpreender que os agricultores utilizem insumos desnecessários, que os apliquem em excesso e muitas vezes de forma equivocada. A diversificação mencionada em vários pontos deste capítulo permitiria que os próprios agricultores produzissem em seus sítios alguns sucedâneos, que substituiriam com menores custos aos insumos industrializados. Na realidade, é possível converter suas propriedades em verdadeiras "fábricas" de substitutos de insumos convencionais (adubos, forragens, rações, etc). A dependência de recursos externos (crédito, insumos, etc) é inversamente proporcional a:
i) a diversificação da produção silvoagropecuária;
ii) a adequada complementariedade de seus componentes;
iii) a eficiência no uso dos recursos produtivos existentes nas propriedades; e
iv) a correta aplicação das tecnologias. Quanto maior é a diversificação e a eficiência, menor será a dependência.
O uso inadequado e excessivo de insumos industrializados aumenta desnecessariamente os custos unitários de produção. Se, além dos problemas de uso equivocado ou excessivo antes mencionados, os agricultores não estão organizados para comprá-los em conjunto e não conseguem encurtar as extensas cadeias de intermediação, é evidente que os preços dos insumos serão muito altos e os custos unitários de produção se elevarão desnecessariamente. Desnecessariamente porque, tal como já foi indicado, os pequenos agricultores têm reais e efetivas possibilidades de adotar tecnologias que poderiam diminuir a dependência ou prescindir de vários fatores caros e escassos.
11.9 COMO MELHORAR OS PREÇOS DE VENDA?
A forma distorcida como os agricultores accedem aos fatores de produção e as tecnologias inadequadas que adotam, determinam que seus custos unitários de produção sejam elevados. Esta situação provoca uma necessidade ainda maior de melhorar a comercialização dos seus excedentes com o objetivo de vendê-los por melhores preços e desta forma contrabalançar, pelo menos em parte, os elevados custos unitários de produção, e remunerar o esforço e os riscos dos agricultores.
Infelizmente isto não ocorre assim; pelos motivos já indicados, os agricultores vendem os seus escassos excedentes a preços desnecessariamente baixos. Estes preços de venda continuarão sendo baixos, a menos que os agricultores:
a) Diversifiquem a sua produção agropecuária e semeiem culturas anuais com variedades de distintos ciclos vegetativos (com maturação precoce e/ou tardia) ou o façam de forma escalonada, para evitar que toda a oferta de um único produto se concentre em uma só época ou em um período muito curto do ano; época na qual todos os agricultores efetuam suas vendas e os preços se deprimem; com idêntico propósito, as culturas permanentes deveriam ter variedades com distintas épocas de colheita (diversificação varietal por maturação), especialmente as perecíveis, como por exemplo as frutas.
b) Adotem medidas para aumentar a oferta em épocas de escassez ou de maior demanda, como por exemplo, adequar a produção de forragem e as parições das vacas para ter uma maior produção de leite em épocas críticas; obter colheitas precoces para antecipar a chegada ao mercado; construir galpões rústicos e de baixo custo para armazenar os excedentes de forma segura e poder vendê-los em épocas de escassez; programar a produção de leitões para vendê-los por ocasião das festas de fim de ano ou a de peixes na Semana Santa.
c) Façam o processamento primário (ainda que seja a nível familiar ou comunitário) dos excedentes, não só para agregar-lhes valor(46*) e evitar perdas, mas também para distribuir o seu consumo (pela família e pelos animais) e a sua venda ao longo do ano e fazê-lo por melhores preços. Às vezes os preços na época da safra são tão baixos, que sequer pagam o custo da colheita; em tal circunstância, o seu processamento para poder postergar a venda do excedente se apresenta como uma interessante e às vezes única alternativa para salvar-se do prejuízo.
d) Produzam variedades que permitam um período mais longo de armazenagem (conservação) para obter melhores preços fora da época de colheita. Por exemplo, a antiga variedade de cebola "Valenciana Corrente" usada há muitos anos no Chile, pode ser substituída pela "Valenciana Platina" e "Valenciana Sintética 14". Estas podem ser armazenadas em bom estado e com um mínimo de brotação até 240 dias; enquanto que a "Corrente" apodrece e brota em 80% ao final do mesmo período. Tudo isto em condições normais de armazenagem a nível de pequenos agricultores [12]. O grande aumento que geralmente ocorre no preço de um produto perecível diretamente aos consumidores, proporcionará uma receita incomparavelmente superior que vender tal produto no atacado, ao primeiro intermediário que aparece no sítio, sem limpá-lo, classificá-lo e sem empacotá-lo.como a cebola, desde a colheita até a véspera da próxima pode melhorar significativamente os lucros dos agricultores, pelo simples fato de semear uma variedade apropriada ao propósito antes mencionado. Um significativo prolongamento no período de conservação (que gera significativos aumentos nos preços de venda) também pode ser conseguido através de uma melhor sanidade da cultura e com adequadas práticas de pós-colheita (que não necessariamente exigem gastos adicionais).
e) Ofereçam ao mercado, produtos mais sadios; muitos consumidores estão cada vez mais dispostos a pagar um preço mais alto por produtos cujas culturas tenham sido irrigadas com águas não contaminadas e produzidos sem a utilização de agroquímicos.
f) Ofereçam produtos de melhor qualidade. A título de exemplo, no caso do café, o simples fato de adotar algumas tecnologias melhoradas de produção, colher apenas os frutos maduros e introduzir melhores práticas de manejo pós-colheita, resultam em um significativo incremento na qualidade do produto e consequentemente em seu preço de venda.
g) Diminuam as desnecessariamente extensas cadeias de intermediação.
h) Diversifiquem as opções e os canais de comercialização; como exemplo, agricultores organizados podem entregar cestas diversificadas de alimentos (com periodicidade previamente estabelecida) diretamente a consumidores também organizados; ganham mais os produtores e economizam mais os consumidores.
Se não se capacita aos agricultores e não se estimula sua organização para que adotem as medidas recém-indicadas, os processos de comercialização continuarão sendo distorcidos e os preços pagos aos agricultores continuarão sendo baixos e injustos; mesmo que o Estado estabeleça preços mínimos e garantias de comercialização, construa centrais de abastecimento e infraestruturas de distribuição e conceda subvenções. Estas medidas de alto custo terão pouca eficácia se previamente não se capacita e organiza os agricultores; se isto não ocorre, as demais medidas governamentais recém-mencionadas acabarão beneficiando de fato aos intermediários; para confirmá-lo basta verificar quem são as pessoas que comercializam nos mercados agrícolas; geralmente não são agricultores, ainda que aparentem sê-lo.
11.10 COMO MELHORAR A RELAÇÃO INSUMO/PRODUTO E AUMENTAR OS LUCROS?
Os agricultores se queixam, com razão: que a relação insumo/produto na atividade agropecuária é cada vez mais desfavorável; que eles necessitam utilizar uma maior quantidade de insumos para obter a mesma quantidade de produto; que os preços dos insumos aumentam muito mais que os preços de seus produtos (porque existem demasiados elos no circuito industrial e comercial, antes e depois da etapa de produção propriamente dita); e que eles necessitam entregar mais quilos de produto para comprar uma mesma quantidade de insumo.
Como consequência destas condições desfavoráveis os seus lucros são insuficientes. Dentro da tendência neoliberal, talvez a única alternativa realista, é conseguir o aumento dos seus lucros como resultado da oferta de um maior e melhor excedente, da redução dos custos de produção e do aumento dos preços de venda. Através desta via realista, os agricultores ganharão mais dinheiro por aumentar a quantidade do excedente (volume de produção) e por melhorar o preço de cada quilograma vendido. Para que esta alternativa seja eficaz, é necessário que os próprios agricultores executem as 3 etapas do negócio agrícola; isto é, que eles mesmos se encarreguem da produção propriamente dita, mas também da etapa anterior e posterior ao processo produtivo.
Dito de outra forma, é necessário que se encarreguem das atividades "dentro da porteira" (produção) e "fora da porteira" (acesso a insumos, processamento e comercialização); só assim se apropriarão de uma percentagem mais alta e mais justa do preço final que os consumidores pagam pelo produto agrícola. Se eles se responsabilizarem apenas pelas atividades "dentro da porteira", os benefícios que estas produzem serão anulados pelas atividades "fora da porteira". Se eles se dedicarem somente a etapa de produção, as demais serão executadas pelos agentes intermediários, os quais se apropriarão dos excedentes que poderiam melhorar a renda dos produtores agropecuários(47*).
Para aumentar os seus ganhos, é desejável que os agricultores substituam até onde seja possível:
- o habitual e prejudicial procedimento de comprar insumos industrializados, no varejo, com alto valor agregado (e consequentemente a preços altos) e vender os seus produtos no atacado, na época de colheita, sem valor agregado (e consequentemente a baixos preços); por um
- novo procedimento no qual os agricultores produzam em seus sítios e comunidades parte dos insumos (com baixos custos) e vendam os seus produtos no varejo, fora de época de colheita, com algum valor agregado (a preços altos).
Em outras palavras, é necessário que os agricultores gastem menos no que compram e adicionalmente ganhem mais no que vendem; que gastem menos nas entradas e ganhem mais nas saídas; que comprem menos e vendam mais; que os insumos que entram na propriedade custem menos e os produtos que saem valham mais; porém os agricultores necessitam atingir os dois objetivos de forma simultânea, já que alcançar apenas um deles não é suficiente.
Para conseguir uma menor valorização das entradas e uma maior valorização das saídas é conveniente que as famílias, os lares, as propriedades e as comunidades dos pequenos agricultores se transformem paulatinamente em suas agroindústrias, as quais deverão ser empregadoras da mão-de-obra familiar excedente, produtoras de insumos, processadoras de alimentos e incorporadoras de valor agregado. Isto lhes permitirá, por exemplo:
a) que em vez de comprar rações balanceadas adquiram as sementes dos seus componentes, produzam estes ingredientes em suas propriedades e com eles fabriquem as rações domésticas; se não podem produzir tais componentes deveriam comprá-los no atacado diretamente dos produtores na época da colheita para reduzir seus custos; e b) que em vez de vender sua soja e milho na época de colheita, no atacado (e in natura) os transformem em suínos e estes em defumados e os vendam no varejo, com um mínimo de intermediação.
Ao propor que os agricultores realizem de forma eficiente as três etapas (antes, durante e depois da produção) do negócio agrícola, não significa que eles não devam integrar-se ao mundo moderno das cadeias agroindustriais e agroexportadoras; significa que devem integrar-se apenas naqueles elos que sejam vantajosos e convenientes para os interesses dos agricultores (não dos industriais ou exportadores); significa que devem eliminar aqueles elos que não lhes sejam convenientes; significa que alguns elos deveriam pertencer aos agricultores para que eles não necessitem estar sempre dependentes e subordinados a elos pertencentes às grandes corporações que fabricam insumos e processam suas colheitas.
Ao concluir, cabe fazer uma pergunta: Por que os preços que os agricultores recebem por seus produtos primários flutuam (leite, frutas, cereais, suínos, etc) e os preços que os consumidores pagam por seus derivados (leite em pó, frutas em conserva, farinha, presunto,etc) sempre sobem e jamais baixam?
Uma reflexão final....Sim, é possível!
Neste documento se tratou de demonstrar que: - é possível promover o desenvolvimento agropecuário sem exclusões e sem protelações; isto é, que se pode fazê-lo em favor de todos os agricultores e de forma imediata.
- nos países da América Latina e Caribe temos um imenso contingente de recursos humanos desejosos de trabalhar, de superar-se e de progredir; temos a terra (geralmente fértil e barata); temos muitas tecnologias reconhecidamente eficazes; muitas vezes temos os recursos materiais; em muitas regiões temos as condições climáticas favoráveis (temperatura, luminosidade e precipitação pluviométrica) que nos permitem produzir biomassa de forma permanente e obter até três colheitas de grãos ao ano (a maioria dos países desenvolvidos só pode obter uma colheita anual); e, muito especialmente, temos a urgente necessidade de fazê-lo.
O que faz falta é levar à prática uma estratégia de desenvolvimento pragmática, mesmo que não seja a ideal; pois os agricultores não estão pedindo perfeccionismos inalcançáveis, eles necessitam com urgência de medidas que sejam compatíveis com as soluções que realmente possam adotar (não com as que estão fora do seu alcance).
Porém é necessário fazê-lo de imediato, nas adversas condições de hoje, com os recursos que estão disponíveis na atualidade e não com os que, talvez, tenhamos amanhã; porque o mais provável é que amanhã não teremos condições mais favoráveis, nem recursos em maior quantidade dos que temos na atualidade. Além do mais, é necessário fazê-lo com urgência, devido a que os atuais 59 milhões de latinoamericanos desnutridos necessitam alimentar-se hoje e não no futuro. Com tantas potencialidades humanas, tecnológicas e econômicas não parece lógico continuar dedicando tempo e esforços a identificar debilidades e restrições, a buscar culpáveis, a formular justificativas e a pedir que outros solucionem nossos próprios problemas; é necessário atuar e aproveitar as oportunidades existentes.
Quem deve formular e executar esta estratégia?
Pelas razões mencionadas nas páginas 139 a 141 (capítulo 12, comentário ao 6o. questionamento), agora mais do que antes o desenvolvimento agropecuário é um problema fundamentalmente (ainda que não apenas) tecnológico e gerencial; consequentemente, deverá ser resolvido sob a orientação direta dos profissionais de ciências agrárias, especialmente os que atuam nas instituições de educação agrícola, pesquisa agropecuária e extensão rural; porque a agricultura contemporânea requer como absolutamente imprescindível dispor de boas tecnologias, de bons extensionistas, os que por sua vez exigem que as faculdades formem excelentes profissionais. No entanto, devido a magnitude do desafio não é suficiente contar apenas com o apoio dos executivos das três instituições recém-mencionadas.
É necessário o compromisso e a participação de todos os pesquisadores, docentes e extensionistas, porque:
- É importante que os diretores dos organismos de pesquisa tomem a decisão de gerar tecnologias que respondam às circunstâncias reais (não ideais ou artificiais) de todos os estratos de agricultores de cada país; porém é imprescindível que cada um dos pesquisadores proporcione de imediato a contribuição pessoal que está dentro de suas possibilidades, em vez de seguir esperando por decisões superiores ou recursos externos.
- É importante que os diretores das faculdades de ciências agrárias adotem a decisão de formar profissionais mais criativos, inovadores, comprometidos, pragmáticos, realistas, práticos, porém é imprescindível que cada um (sem exceção) dos docentes de cada faculdade adapte os conteúdos das suas disciplinas, para que sejam mais pertinentes ao exercício profissional e mais adequados às necessidades e possibilidades da maioria dos agricultores. Nunca será demasiado reiterar: O maior potencial de mudança e com maior efeito irradiador para o interior de todos os serviços agrícolas de apoio, está nas faculdades de ciências agrárias.
- É importante que os diretores dos serviços de extensão rural tomem a decisão de agilizar operativamente suas instituições e de adequar os conteúdos difundidos e os métodos empregados; porém é imprescindível que o façam também todos e cada um (sem exceção) dos extensionistas e, muito especialmente, os agentes locais de extensão.
Enfim, este desafio não é tarefa só para os executivos, o é também e muito especialmente para os executores. Muitas das mudanças propostas neste documento podem ser adotadas pelos executores sem depender das decisões dos executivos; porém as decisões dos executivos de pouco servirão se não contarem com a ação comprometida de todos os executores que integram cada instituição. As mudanças deveriam vir de baixo para cima; de dentro para fora; e não tanto (ou não apenas) de cima para baixo e de fora para dentro.
Os pesquisadores, os docentes e os extensionistas fizeram muitíssimo em prol da agricultura comercial e de exportação; é necessário que continuem fazendo-o, porque a abertura dos mercados exige a contribuição eficiente dos grandes agricultores. Todavia, agora é fundamental que façam um esforço, ainda mais significativo, em prol dos pequenos e médios agricultores. Conseguirão fazê-lo na medida em que:
a) tenham o compromisso social e a humildade profissional de "fazer o possível, quando não possam fazer o desejável".
b) sigam o sábio ensinamento do imperador romano Marco Aurélio: "Rogo a Deus que não me faça mudar aquilo que não se pode mudar; que tenha a coragem de mudar o que deve ser mudado e ter a sabedoria para distinguir o que se pode mudar daquilo que não pode ser mudado".
Felizmente, é muito o que os próprios profissionais de base (não necessariamente os executivos) podem mudar; é necessário, no entanto, que o façam e que o façam todos(48*), que façam tudo o que podem, que o façam bem feito e que o façam já; porque tarde ou cedo terão que fazê-lo e o futuro oferecerá maiores oportunidades profissionais para os rápidos que para os lentos; terão êxito os que fizerem primeiro. É necessário sair do plano dos conceitos e passar ao plano das realizações concretas, porque cada minuto que passa é oportunidade que se perde, e esta muitas vezes já não se pode recuperar.
40. Se a terra é fator limitante, deverá priorizar-se a criação de animais menores (aves, peixes, ovelhas, cabras, abelhas, suínos, coelhos, etc) e obter deles altos rendimentos produtivos e reprodutivos. A escassez da terra será inversamente proporcionl aos referidos rendimentos.
41. Esta distorção significa que ao fazer (o Estado) um grande esforço para conceder o crédito a um agricultor, se desperdiça a potencialidade e a oportunidade de introduzir inovações tecnológicas; com isto se perde em grande parte sua razão de ser e os principais motivos para que o Estado o conceda aos agricultores)
42. Quando o crédito foi abundante e subsidiado, às vezes atuou como um "desestimulador" da eficiência e um estimulador do consumismo tecnológico e do superdimensionamento dos investimentos.O Estado não temcapacidade financeira para sustentar no tempo os mecanismos artificiais compensadores das ineficiênciais do negócio agrícola
43. Um estudo realizado no Brasil indica que o montante de crédito rural oficial diminuiu de 20,830 bilhões de dólares em 1980 para 8,590 bilhões em 1993; e que nesses 13 anos a produção agropecuária aumentou em 44,6%, apesar de que nesse mesmo período a superfície cultivada baixou do índice 100 para 88,7; isto significa que aumentou a produção via incremento da produtividade, mesmo com redução do montante de crédito que o governo concedeu aos agricultores.
44. Adicionalmente esta alternativa tem um extraordinário efeito educativo e motivador, através do qual o próprio agricultor se dará conta que, se ele foi capaz de cultivar com racionalidade e eficiência uma superfície de 100 metros quadrados, porque não será capaz de fazê-lo em uma superfície de 1000 ou de 10.000 metros quadrados ou de fazê-lo em toda a área cultivada. Se foi capaz de fazê-lo com o milho, porque não poderá fazê-lo com o feijão, a soja ou com o amendoim?
45. é freqüente que os agricultores mal orientados comprem fórmulas compostas de fertilizantes que contêm N, P e K, em circunstâncias nas quais a cultura anterior foi uma leguminosa inoculada e em consequência, o solo provavelmente requer menos nitrogênio; ou que a mata foi recentemente derrubada e queimada e, nestas condições, o solo possivelmente tem suficiente potássio.
46. A titulo de exemplo, vender o feijão limpo, selecionado e empacotado em pequenos sacos de plástico diretamente aos consumidores proporcionará uma receita incomparavelmente superior que venter tal produto no atacado, ao primeiro intermediário que aparece no sítio, sem limpá-lo, classificá-lo e sem empacotá-lo.
47. De acordo com dados de 1990 da Associoação Brasileira de Indústrias de Alimentos (ABIA), apenas 28% da receita total do negócio ou complexo rural é gerado dentro da propriedade e 72% fora dela, sendo 8% antes do processo produtivo e 64% depois da colheita.
48. Que todos o façam, porque ninguém deverá sequer correr o risco de
omitir-se quer seja consciente ou inconscientemente, porque "a omissão
é o pecado que com mais facilidade se comete e com mais dificuldade se
constata; e o que facilmente se comete e dificilmente se constata,
raramente se corrige. A omissão é o pecado que se faz não fazendo".
Sermão da Primeira Dominga do Advento (1.650 Padre Vieira).
Próxima Página - Capítulo 12